segunda-feira, 18 de junho de 2018

O sujeito autônomo como modelo a ser seguido

Em minhas pesquisas sobre a ascensão do individualismo pude constatar uma característica cada vez mais presente na definição do ser humano do século XXI. O sujeito autônomo hoje é o modelo a ser seguido pelo resto da sociedade.

O período histórico que ajuda didaticamente a localizar a ascensão deste sujeito está delimitado pela queda do muro de Berlin em 1989. A vitória irremediável do neoliberalismo representou também a bandeira da superioridade do livre mercado, da economia global e, não menos importante, a relevância do sujeito autônomo.

No sentido amplo da terminologia, o sujeito autônomo detêm habilidades que em outro período histórico seriam olhadas de esguelha por comunidades mais rústicas. Eis as “qualidades” fundamentais para a sobrevivência do sujeito autônomo em nosso tempo:

- hipercompetitividade;
- não cometer erros;
- ser dotado de agilidade e perspicácia para a resolução de problemas;
- resiliência;
- multitarefas;
- diariamente motivado;
- não pode estar triste;
- busca constante pela superação de si mesmo.

 Tais características determinam o sujeito autônomo, porém destaco ainda mais um elemento de grande importância. Este modelo de sujeito é dotado de uma responsabilização pelo seu sucesso ou fracasso, negando quaisquer fenômenos externos, tais como a esfera política ou econômica, que possam estar lhe barrando na realização constante de seus “sonhos”.

O discurso amplamente disseminado pelos manuais de gestão de pessoas, liderança ou serviços de coach profissional, tem vendido um mundo feito de algodão doce aos sujeitos “pré-autônomos”.
Afinal, se o vizinho conseguiu sair do zero e hoje está milionário, por que eu também não? Se o amigo do amigo hoje lucra desenfreadamente com a sua startup, por que eu não? Se o meu amigo bate todas as metas, ganha comissões cada vez maiores, por que eu não?

Estes questionamentos tem ligação direta com o desejo de tornar-se autônomo, resolver todos os problemas e superar a si mesmo. No entanto, tal posicionamento frente o mundo do trabalho – e até da vida como um todo – tem provocado um adoecimento psíquico social. A depressão, a ansiedade e o aumento massivo da venda de psicotrópicos aumenta ano após ano e essa progressão converge diretamente com a imposição de indivíduos (ou trabalhadores) heróis, responsáveis por tudo. Em outras palavras, o adoecimento psíquico está aumentando porque os sujeitos não estão sabendo lidar com estas exigências.

Não devemos omitir essa perspectiva problemática da sociedade. Necessitamos rever com certa urgência esse novo espírito autônomo que tem se vendido para a humanidade. Quando iremos perceber que os seres humanos não são máquinas?

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